O que a sociedade conhece do jornalismo não é suficiente para entender a profissão

EntreMeios inicia aqui uma viagem reflexiva sobre experiências no campo do Jornalismo e da Comunicação, da Educação e da Ciência, e da Política no contexto das liberdades de expressão e pensamento

A o longo das duas últimas décadas, o contato com o jornalismo foi em sala de aula. Enriquecedores e estimulantes, os momentos vividos com os mais de mil estudantes em formação trouxeram reflexões importantes, especialmente sobre o currículo.

A formação em jornalismo sempre gerou debates acalorados. Os limites da atividade, em comparação com outras profissões do campo da Comunicação, são tênues demais. Suas especificidades são necessárias, especialmente quando viéses cognitivos distorcem os fatos para justificar sistemas de crença fundamentalistas. Mas o calvário começa justamente aí.

Recém chegados à universidade, os postulantes à profissão têm dificuldade de compreender até onde o jornalismo pode chegar para se conformar às qualidades dele exigidas. Por que, afinal, estudar tanto para o exercício de uma atividade que, pensam, se resume a escrever bem?

Não é uma pergunta retórica, tampouco de resposta fácil.

Calouros, como são conhecidos os ingressantes em cursos superiores, tendem a reproduzir o imaginário social quando analisam a escolha da carreira. Uma conversa rápida sobre a profissão, no calor do primeiro dia de aula, revela o nível de influência de fatores percebidos como inerentes ao exercício do jornalismo.

Apresentadores de programas informativos na TV, com destaque para os não jornalísticos, e Youtubers são mais citados que repórteres reconhecidos e premiados. Entre Caco Barcelos e Felipe Neto, por exemplo, não há dúvidas sobre quem aparece na preferência de aspirantes a jornalismo como inspiração.

Mais embaixo, evidentemente, é esse buraco. A comparação simplista não pode ser levada à sério quando se consegue perceber as nuances que separam um repórter de um influenciador digital. Mas é no bate-pronto da conversa informal que se percebe o quão desinformados estão (não todos, claro) os que escolhem a formação em jornalismo.

É culturalmente aceitável.

As escolas de jornalismo existem justamente para mostrar essas nuances e enfatizar o quão relevante é estudar para que se resguarde uma sociedade plural e democrtática. Também estão aí para mostrar o quão nocivas podem ser informações inverídicas, sem correspondência com os fatos cotidianos. Entre muitos outros aspectos que caracterizam a profissão.

O que a sociedade conhece sobre o jornalismo não é suficiente para aceitá-lo como uma profissão que exige uma dose considerável de leitura, diálogo, pesquisa, afeto… Na expressão da juíza Carla Rister, que desobrigou a obtenção do diploma para o exercício profissional,

caso tal exigência prevalecesse [o diploma], o economista não poderia ser o responsável pelo editorial da área econômica, o professor de português não poderia ser o revisor ortográfico, o jurista não poderia ser o responsável pela coluna jurídica e, assim, por diante, gerando distorções em prejuízo do público, que tem o direito de ser informado pelos melhores especialistas da matéria em questão.

Quase 20 anos atrás, a jurisprudência se alinhava com o que de mais perverso tomou conta da comunicação contemporânea: com a exponencialidade dos canais “informativos” da atualidade, nem mediadores sociais (espaço antes reservado ao jornalismo) nem especialistas se vêem capazes de frear a expansão da ignorância e do desconhecimento sobre os dilemas cotidianos do nosso tempo.

O argumento de que especialistas têm a primazia de informar melhor sobre os temas que dominam soa quase tão vazio quanto o de que qualquer um com leitura bastante para interpretar as leis pode advogar ou mesmo decretar juízos que incidem sobre o exercício profissional de determinada atividade.

De qualquer modo, a obrigadoriedade do diploma para jornalistas passa por uma discussão bem mais ampla. É fato que a profissão exige qualificações que especialistas em outras áreas desconhecem. A faculdade do jornalismo continua necessária porque, ela mesma, é uma especialidade.

Mas é preciso avaliar as consequências de uma decisão jurídica fundamentada no direito a liberdades muitas vezes nocivas ao convívio social.

Luciano Bitencourt

luciano@entremeios.online

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