Na educação mediada por tecnologias digitais, mais pode ser menos

Transformação digital é um termo já banalizado nas esferas onde inovação, empreendedorismo e outras expressões descontextualizadas ajudam a maquear a face tóxica das tecnologias de hoje.

Vamos tomar como exemplo o setor da educação.

A pandemia de Covid-19 acelerou uma tendência latente em investimentos no ensino a distância. O crescimento dessa “modalidade” era nítido nos censos anuais, sobretudo na educação de nível superior. E as oportunidades de ganho em escala tornaram-se exponenciais.

Na matemática dos investidores, menos é mais.

Em um curso presencial, uma sala de aula com cem estudantes é praticamente inviável se a ideia for acompanhar a formação de cada um. Já uma sala com mil pode muito bem ser “administrada” com ferramentas de Inteligência Artificial e plataformas onde as atividades dos estudantes são “individualizadas”.

As tecnologias digitais estão desenhando um futuro que mal enxergamos porque, nele, somos usuários. E esse é o problema quando associamos tecnologias digitais e educação. Gestores-usuários, professores-usuários, estudantes-usuários são, eles mesmos, ferramentas. Nesse futuro, a realidade, as referências sobre como interpretá-la e as relações de força que a determinam parecem estar nas interfaces que devoram nossos dados e cospem soluções fáceis para as dificuldades que enfrentamos.

A fórmula, na verdade, está invertida: o cenário nos mostra que “mais é menos”.

Tudo é excessivamente acessível, nossa atenção pede uma economia própria e os critérios de escolha são terceirizados para um tipo de inteligência que não nos pertence. Simplificando: tem conteúdo demais, fontes demais e as escolhas que fazemos não são nossas.

Todo o lugar de aprendizagem é um lugar de identidade. É onde aprendo a ser quem sou, convivo com os limites entre quem sou e quem são os outros, conheço o ambiente em que se dá essa convivência, estabeleço relações a partir de normas sociais que só posso mudar no convívio e desenvolvo inúmeras habilidades que me serão úteis na vida.

Então, o digital se junta a outras concepções em que nossa identidade se constitui. Como instrumento, o digital pode distorcer nossa interpretação sobre a realidade se não tivermos consciência de suas limitações. É preciso conhecê-las e desfazer a maquiagem, perceber o uso cosmético de certas soluções.

Há alguns anos, o “futurista” Thomas Frey “previu” que as maiores empresas da internet em 2030 serão escolas online, onde professores serão substituídos por agentes de inteligência artificial capazes de ensinar diferentes conteúdos simultaneamente a um número exponencial de estudantes.

Imagine o seguinte: 5 mil estudantes no Brasil estão em aula de estatística ao mesmo tempo que outros 10 mil estudando botânica na China e outros 20 mil aprendendo linguagem de programação na África do Sul, todos orientados por um “único professor” em uma “única escola”. Um agente de Inteligência Artificial é capaz de processar e comunicar diferentes conteúdos simultâneos a um número infindável de pessoas, desde que tenha recursos.

Outro ponto que nos ajuda a compreender o cenário: só em 2020, as EdTechs, empresas que oferecem tecnologias para a educação, cresceram 26% no Brasil. Naquele ano foram mapeadas 566, a maioria ligada à educação corporativa. Em 2021, os investimentos desse tipo de negócio chegaram a 553,6 milhões de dólares no país.

A educação anda refém de um certo tipo de pensamento inovador puramente focado em como instrumentalizar a aprendizagem. A inteligência por trás do negócio é oferecer dispositivos que aprendem os padrões de nossas escolhas, nossas dificuldades, nossa atenção. E oferecem formas de nos treinar a ir adiante, a superar “desafios”, conquistar recompensas.

A resposta não está em negar o negócio em si, mas compreender que exponenciais são também as artimanhas que esses padrões reproduzem. As tecnologias digitais são muitas, não são aplicáveis igualmente a todos os processos, seus resultados podem esconder e até ampliar problemas crônicos de uma realidade que não é genérica.

Não é a instrumentalização digital que transforma a educação. É o ambiente no qual o digital se incorpora e com que propósito.

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Boas histórias contam

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