Não se pode pintar um quadro de alguém com os esboços que dele restam

CRÔNICAS DE UMA BIOGRAFIA

Amphilochio tinha uma aura estranha para o período em que viveu, na passagem entre os séculos 19 e 20. Escritor, jornalista e “curandeiro”, nasceu desterrense em 1862 e morreu florianopolitano em 1937.

Escuro demais para ser branco e claro demais para ser negro, era também portador de uma deficiência física (tinha um braço menor do que outro). Talvez por isso esteja tão parcamente preservado em memórias que não mais se conectam com a história oficial.

Um antigo álbum de família guarda felicitações dirigidas a ele por Henrique Rupp Junior, Dorval Melchiades de Souza, General José Vieira da Rosa, Heitor Blum, Aristiliano Ramos, Felippe Schmidt, José Boiteux e Antonieta de Barros, entre outras personalidades políticas dos anos 20 e 30 do século passado.

É parte do pouco que resta de uma lembrança familiar espalhada sabe-se lá por quantas gavetas de decendentes que não mais se conhecem. Reunir os esboços que dariam a ele uma identidade não resultaria em um quadro completo. Um misterioso incêndio no “rancho” da casa de Osny, um dos filhos de Amphilochio, transformou em cinzas certos documentos que o mantinham parcialmente vivo.

Havia um caderninho onde se podia ler receitas com plantas que curam. Singelo, escrito com o capricho de quem não tinha outra forma de preservar a riqueza em palavras, foi-se a evidência de um conhecimento ancestral, originário de povos cuja sabedoria foi sufocada pela industrialização no processamento de fármacos.

A escrita, aliás, era um dom. Amphilochio produziu discursos para políticos importantes, como o então governador de Santa Catarina Nereu Ramos. É o que se diz. Faltam-nos registros que o provem. Escritor sem obras, está imortalizado na Academia Catarinense de Letras.

Precedido por Feliciano Nunes Pires, patrono da Cadeira 9, é reconhecido (agora Anfilóquio) como um dos fundadores. Está lá no site, ainda que pouco se saiba a respeito dele também na entidade literária máxima de Santa Catarina. Diz apenas que, além de escritor, foi um dos fundadores do teatro da Ubro (União Beneficente Recreativa Operária).

Entre os anos 20 e 50 do século passado, o teatro serviu de palco para manifestações culturais inspiradas no modernismo e voltadas para homens e mulheres de baixa renda. Patrimônio da capital de Santa Catarina, a casa está hoje sob os cuidados da Fundação Franklin Cascaes. Também ali nada se tem a respeito de Amphilochio.

O jornalista é, igualmente, um desconhecido. Escreveu em diferentes jornais com pseudônimos. Entre aqueles documentos consumidos pela chama no “rancho” de Osny, textos publicados em periódico local mostravam uma vertente política voltada para oposição aos Konder e certa eloquência no contraponto a retóricas integralistas, como as de Othon Gama D’eça.

Amphilochio de Carvalho Gonçalves “saltou” da Ponte Hercílio Luz misteriosamente. A aura estranha o acompanhou também na morte, simbolicamente marcada por um nome, até aqui, sem reconhecimento nem corpo.

Luciano Bitencourt

https://entremeios.online

luciano@entremeios.online

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