Jornada entre a nota de pé de página e a reportagem de capa

Gaúcho, na foto do centro amarrando a “bandeira”, e os parceiros Enio e Luiz Carlos nas fotos de Claudio Silva da Silva

Em duas semanas o jornal seria lançado e não tínhamos ainda a reportagem de capa. Toda a composição estava pronta, faltava o que destacar nas páginas centrais. Não dava para fazer uma escolha qualquer, a estreia pedia por algo inusitado, diferente do que os jornais tradicionais levantavam como tema.

O PalavraMundo nasceu de um idealismo típico de jornalistas recém-formados e que estavam juntos não fazia muito tempo em uma empreitada saborosa e cheia de riscos. Inspirado em Paulo Freire, o nome expressava a ideia de que a leitura do mundo precede a das palavras. Um desafio e tanto, em se tratando de jornal para crianças.

Capa de lançamento do jornal dirigido para crianças, o PalavraMundo. A foto é de Luiz Carlos Vieira

Estávamos começando outubro de 1990. O lançamento seria no dia 12 em um estande na Feira da Criança, primeiro evento do gênero em Florianópolis. E não tínhamos o destaque, a reportagem que serviria para justificar o propósito da publicação.

Folheando o Diário Catarinense, o principal veículo informativo de Santa Catarina, veio a ideia. Uma nota de pé de página, daquelas que pareciam as letras miúdas de um contrato, chamou a atenção. Nem título tinha, a nota. O texto de cinco ou seis linhas era precedido de uma palavra de destaque, difícil de lembrar agora. Mas era a pauta que o PalavraMundo precisava.

Partimos para Sambaqui, bairro a 20 km do centro da Capital. Precisávamos desesperadamente de um barco ou nada de matéria. Um sábado inteiro não parecia suficiente. Cinco horas de convivência com folclóricos moradores até a chegada de uma baleeira que nos levaria à ilha de Ratones Grande, onde esperávamos encontrar o protagonista da nossa pauta.

Era uma dessas situações em que o Jornalismo faz jus ao que propõe como missão. Nada havia sido combinado, sequer imaginávamos como seria nosso entrevistado. Nos lançamos em uma busca sem previsão sobre como terminaria.

Ao chegar à beirinha da praia, o barco nos trouxe Reinaldo. Era com ele nosso compromisso não combinado. E ele conduzia a embarcação para deixar a família na “cidade”.

Foi o Gaúcho quem o “chamou”. Dono de um boteco na ponta do Sambaqui, entre uma conversa e outra conosco e com os galináceos que criava, nos presenteou com uma dessas histórias que a memória pode esconder de vez em quando, mas mantém as conexões sempre vivas.

Já estávamos pensando em retomar a busca no dia seguinte. Gaúcho foi em casa (tão grudada no bar que não se sabia onde terminava um e começava a outra) pegar um tecido vermelho. Uma “bandeira” para hastear como chamariz para os moradores da ilha de Ratones Grande. “Se eles virem, eles vêm”. Vieram.

Reinaldo Pereira Marciano era filho do zelador da ilha e ajudava cientistas e trabalhadores contratados pela Universidade Federal de Santa Catarina para reconstruir a Fortaleza de Santo Antônio, hoje um dos pontos turísticos da Capital.

Aos 14 anos, passava mais tempo com o pessoal da UFSC do que na escola. Era nota de pé de página em um grande jornal, virou matéria de capa na estreia do PalavraMundo e personagem principal de uma história a ser recontada e degustada aqui semanalmente.

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